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Space Warriors - Guerreiros do Espaço



Criando novos mundos

Fonte:
http://www.abacaxiatomico.com.br/obalaio/kingdom/14.htm
http://www.abacaxiatomico.com.br/obalaio/kingdom/15.htm
Por Katchiannya Cunha


Muitos críticos e espectadores em geral proclamam a existência de um atual modismo envolvendo histórias fantásticas e/ou de ficção científica, caracterizado por uma enxurrada de filmes e livros do gênero, liderados por O Senhor dos Anéis e Harry Potter no quesito fantasia e no retorno de Star Wars e Matrix na área da ficção científica.

Não concordo totalmente que esse movimento seja um modismo: a fantasia e a ficção (que não deixa de ser uma fantasia de tempos futuros ou galáxias distantes) sempre estiveram e sempre estarão presentes na vida e na cultura de todos os povos. Enquanto houver um sonhador, uma história mágica será escrita e ouvida. Foi assim com os antigos mitos e contos de fadas, e ainda hoje é assim com obras como as citadas.

O que ocorre é que, de tempos em tempos, essas obras se destacam mais que o usual. E agora esse é um desses tempos de destaque.

E apesar desse filão estar atualmente em evidência, poucas são as editoras nacionais que investem nesta área e, quando investem, preferem importar material (nem sempre de grande qualidade) a aproveitar o talento de artistas locais. É claro que há exceções, como a série Angus - O Primeiro Guerreiro, de Orlando Paes Filho, ou as séries da Editora Trama, Holy Avenger e Victory, ou Dungeons Crawlers, da Mythos.

Um dos artistas nacionais que bravamente insiste em enveredar nesse tipo de narrativa é Wagner Fernandes, veterano e talentoso escritor das séries de ficção Space Warriors (publicada pela Escala nos anos 90) e Os Filhos de Venn. Fernandes nos concedeu uma entrevista exclusiva para falar um pouco sobre si e seu trabalho, assim como sobre a situação dos autores de fantasia e ficção no Brasil.

ABACAXI ATÔMICO - Fale para a gente um pouco sobre você e o seu trabalho.

Wagner Fernandes - Nasci em Guarulhos, SP, onde vivo até hoje. Trabalho com desenho desde 1984 e comecei a lecionar em 1992. Atualmente coordeno uma oficina de Histórias em Quadrinhos na Secretaria de Cultura de minha cidade e faço trabalhos esporádicos de ilustração eletrônica. Gosto de ensinar aos jovens um pouco do que aprendi.

Minha paixão pela arte começou aos cinco anos quando conheci o Homem-Aranha. Embora não soubesse ler na época, gostava de ver as figuras nos quadrinhos. Minha mãe lia as histórias pra mim de vez em quando. Acho que foi aí que as sementes do desenho e da leitura foram plantadas. Depois disso não me lembro de um só momento na vida em que a fantasia não estivesse presente.

Sempre tive uma mente fértil para inventar histórias e criar personagens, e os quadrinhos, filmes e livros - especialmente os de ficção científica e aventura - contribuíram muito para alimentar minha imaginação. Eu adorava aqueles velhos seriados com viagens no tempo e no espaço, soldados e índios, mistério, monstros do espaço, vampiros, super-heróis…

Aos oito anos de idade minha professora me presenteou com um livro chamado "No país dos anões". Foi o primeiro livro que ganhei. Perdi a conta de quantas vezes o li. Anos depois ganhei um novo livro de outra professora que tirou meu nome no "amigo secreto". Assim, aos 12 anos, com a mente cheia de aventuras fantásticas, comecei a escrever, incentivado agora pelas professoras do ginásio. E elas gostavam de minhas redações… Eu só odiava ter que lê-las para a classe.

Eu amava escrever! Descobri que essa atividade poderia ser muito prazerosa. Eu poderia CONTAR TODO TIPO DE HISTÓRIAS! Tornar reais os meus sonhos (afinal, os sonhos são o material de que se faz a vida!). Lembro-me de ter ganhado alguns concursos escolares de redação e isso me animou ainda mais.

O interesse pelo desenho surgiu no mesmo ano, influenciado pelos GIBIS que eu colecionava desde os oito anos. Agora eu também queria desenhar minhas próprias histórias; ter o meu próprio gibi; poder dar VIDA às minhas criações. Foi assim que começou esse casamento entre o desenho e a literatura.

O tempo passou e meu pai, vendo que ficava muito tempo rabiscando, decidiu matricular-me em uma escola de artes, onde freqüentei por três anos. Aos poucos comecei a trabalhar para gráficas, estam-parias, jornais, cada vez aprendendo algo novo e me aperfeiçoando mais. Em poucos anos estava trabalhando numa editora - IBEP - onde conheci vários desenhistas bons, que me ensinaram muito sobre a profissão de ilustrador e produtor gráfico. Um desses desenhistas foi o Rodolfo Zalla, que fazia as revistas Mestres do Terror e Calafrio. Isso foi em 1989 e 1990.

Depois que saí do IBEP, passei a trabalhar como ilustrador e diagramador freelancer para a editora Caminho Suave, e mais tarde para editoras católicas que publicam livros infantis, como a Paulinas, a Paulus e a Ave-Maria. Foi uma temporada muito boa para mim.

Por essa época (entre 1992 e 1997), eu estava dando aulas de Desenho e Pintura e um dos alunos me apresentou a um vizinho seu que trabalhava na editora Abril e era desenhista lá. O Paulo Borges fazia a Revista dos Trapalhões e a Sérgio Mallandro, dentre outras. Ele gostou de meus desenhos e ficou com o número do meu telefone. Meses mais tarde me ligou oferecendo um trabalho freelance. Era para desenhar a revista em quadrinhos STREET FIGHTER II, da editora ESCALA.

AA - Fale um pouco sobre a história da série de quadrinhos Space Warriors e de sua derivada série de livros, Os Filhos de Venn.

WF - Space Warriors conta a história de um grupo de personagens que está tentando fugir de KONTHARA, um mundo prestes a se tornar palco de uma guerra entre duas raças: os VENÚSIOS e os ZAROS. Konthara é uma das luas do planeta VENUSY e é muito parecida com a Terra. Venusy é o 4o. planeta em seu sistema estelar e os zaros (do 6o. planeta) querem Konthara para eles - ou, pelo menos, o direito de viverem ali. ZAR é um planeta gelado e tenebroso e é essa a razão de os zaros desejarem ir para Konthara, que é um mundo mais quente. Mas os colonos venúsios que vivem em Konthara não querem a presença desses alienígenas, que já estão entre eles há um século, e isso gera muita hostilidade de ambas as partes.

No meio desse conflito, estão os SPACE WARRIORS - deuses para uns, demônios para outros. Eles foram aprisionados pelos invasores e conseguiram escapar. Mas para sua infelicidade, possuem um tipo de rastreador genético implantado em seus corpos e agora são perseguidos por caçadores andróides chamados krylls, uma avançada arma da tecnologia zara, muito poderosos.

Os Space Warriors não só têm de enfrentá-los para sobreviverem, como também a hostilidade das colônias kontharianas. Porém, com a ajuda de uma jovem cientista eles acabam ganhando poderes especiais e conseguem enfrentar esses andróides. Agora, precisam sair de Konthara e descobrir como se livrar dos rastreadores, pois se permanecerem com eles por muito tempo, morrerão!

Contudo, para sair de Konthara, precisam da ajuda de um ex-general venúsio que se rebelou contra o governo de Venusy… Conseguirão a ajuda dele?

Basicamente, foi isso o que ocorreu na edição número 1 da Space Warriors. A segunda edição conta o encontro deles com Aaran (o general rebelde) e seus soldados. Juntos enfrentam um novo kryll, ainda mais perigoso. Esta edição, apesar de ter sido produzida, não foi publicada.

Em OS FILHOS DE VENN voltamos quatro anos no tempo, bem ANTES dos eventos apresentados em Space Warriors. Zaros e colonos venúsios vivem em relativa paz em Konthara. Ocasionalmente ocorrem algumas desavenças provocadas por grupos radicais, mas a polícia e o exército conseguem manter a ordem.

Há 500 anos, o primeiro astronauta venúsio pisou em Konthara e descobriu ali um novo mundo, exótico e com estranhas criaturas e povos bárbaros, gigantes e árvores altíssimas. Mas Konthara guardava um terrível segredo: espalhadas por sua superfície estavam milhares de cidades cheias de construções fabulosas e gigantescas estátuas de homens, mulheres e seres híbridos. A arquitetura nesses lugares era deslumbrante e fascinava quem as contemplavam. Uma civilização fantástica havia construído essas grandes metrópoles. Os venúsios jamais imaginaram que ali poderia ter existido tal povo. Foi uma grande surpresa.

Mas… havia um PROBLEMA. Essas cidades foram abandonadas há milhares de anos. A maioria estava intacta, mas outras viraram ruínas; algumas estavam sob a areia do deserto ou as águas do mar. Outras ainda no meio das incontáveis e sombrias florestas ou entre as montanhas.

O que teria acontecido aos habitantes? Por que desapareceram?

Estranhamente, as cidades antigas não estavam vazias. Alguma coisa vivia ali, agora!… Eram criaturas mutantes, monstruosas, de todos os tipos e tamanhos, que atacavam e dilaceravam impiedosa-mente quem ousasse entrar em seus domínios.

Esses seres foram chamados de "DEMÔNIOS DAS RUÌNAS" e só a menção deles já provocava arrepios nos colonos porque os "demônios", quando não matavam suas vítimas, tornavam-nas como eles!… E ninguém queria ser um "demônio das ruínas", por isso mantinham-se o mais afastados possível das velhas cidades.

E é justamente próximo a uma dessas cidades que a história tem início, quando um grupo de arqueólogos examina as ruínas de um vilarejo. Neste grupo está RAYNA-IV, uma estudante de 16 anos que acaba descobrindo algo em uma velha construção. Em princípio, são apenas objetos comuns do povo antigo, mas as coisas começam a se complicar quando são roubados na mesma noite.

Uma série de eventos começa a acontecer em torno da menina, que se vê envolvida em uma trama milenar e em uma disputa entre forças misteriosas; também é perseguida por alienígenas e estranhos personagens. Em busca de respostas para descobrir o que são os objetos, ela acaba descobrindo o que aconteceu ao povo antigo e se prende mais e mais numa teia de mistérios e fatos surpreendentes.

A cada página o véu do passado é aberto, e Rayna-Iv depara-se com uma nova descoberta que a deixa de cabelos em pé. O que Rayna encontrou será o elemento principal para o surgimento dos Space Warriors no futuro… além de um terrível e poderoso ser.

Os 12 capítulos do livro foram divididos em quatro partes e têm como elo esses objetos que escondem esses segredos. Rayna-Iv é a personagem principal nos primeiros capítulos e no decorrer da história outros se juntarão a ela. Passarão por vários cenários, desde cidades moderníssimas com grandes edifícios e carros voadores a montanhas e florestas, andando em cavalos e carros. Fugirão de caçadores de escravos e saltarão de um imenso rochedo; lutarão com espadas, correrão de dragões e gigantes, sobrevoarão cidades antigas… e até cairão em uma delas, sendo perseguidos pelos "demônios das ruínas"!

Em OS FILHOS DE VENN o leitor se sentirá como um turista viajando para uma galáxia distantes e conhecerá povos muito parecidos com os terráqueos mas que têm algumas particularidades: SÃO LONGEVOS (podem viver por séculos e atingir a incrível idade de 600 anos!). Esse fato - a LONGEVIDADE - também é um dos mistérios da história investigados. Por que as pessoas podem viver tanto?

Os Filhos de Venn é uma ficção científica de aventura em que coloquei tudo o que mais me fascinava na adolescência: VIAGENS ESPACIAIS, CIVILIZAÇÕES PERDIDAS, LÍNGUAS MISTERIOSAS, PERSONAGENS ENIGMÁTICOS, SEITAS SECRETAS, POVOS DE OUTROS PLANETAS, HISTÓRIAS POLICIAIS, UM CLIMA DE FAROESTE POR VEZES, PIRATAS, MITOLOGIA E SERES SUPERPODEROSOS… Uma mistura explosiva!

AA - Como surgiu a idéia para a série?

WF - Em maio de 1992 desenhei uma HQ de ficção científica passada em outro universo, a Galáxia de Kaar. A história chamava-se "VÊNUS". Vênus é uma personagem que vi num sonho em fevereiro de 1983. Eu estava com quinze anos na época. Ela era uma moça alta com longos cabelos brancos usando uma roupa azul e com superpoderes. Desde que foi criada, apareceram várias versões dela: loira, morena, ruiva; cabelos curtos. Até que em 1992 surgiu uma nova versão para a personagem: agora eram quatro garotas adolescentes - a de cabelos brancos, uma loira e duas morenas (irmãs gêmeas).

Elas possuíam um gene especial que poderia conceder-lhes grandes poderes desde que devidamente ativado. Uma experiência anterior causara essa mutação em centenas de meninas. A idéia era criar um exército de superseres para defender o planeta Venusy de invasores alienígenas. Mas quando os líderes descobriram que apenas meninas adolescentes possuíam o tal gene, mandaram cancelar o projeto.

Assim, a doutora Dara-Evin (a moça de cabelos brancos) - secretamente submeteu-se à experiência juntamente com Rayna-Iv (a loira) e as gêmeas. Dessa forma, ganharam os superpoderes. Bem, a história parou por aí porque eu não conseguia bolar uma seqüência interessante.

Só voltei à história em 1994, enquanto trabalhava na Street Fighter II. Como a "moda" eram grupos de personagens que lutavam em campeonatos, etc, preparei alguns roteiros no estilo e selecionei 12 personagens dos que eu havia criado desde 1983. Assim, surgiram os SPACE WARRIORS (nota a semelhança com STREET FIGHTER??).

Na primeira versão, eles eram guerreiros de diferentes mundos (Venusy, Konthara, Thargon, Zar) que deveriam lutar num torneio e o "ringue" eram planetas em várias partes da Galáxia de Kaar. Cheguei até a desenhar algumas páginas dessa série, mas achei muito boba e apelativa, além de muito parecida com a Street Fighter que seu estava fazendo.

Eu queria algo mais sério, mais próximo dos livros e filmes de aventura, como aquelas boas e saudo-sas histórias dos X-MEN escritas por Chris Claremont e ilustradas por John Byrne! Histórias onde quem morria, morria mesmo!

Então cortei alguns personagens e acrescentei outros, até que, finalmente, cheguei à formação apresentada na SPACE WARRIORS: Dara-Evin, Donar, Rayna-Iv, Gorbo, Kaar, Nexor, Aaran, Laynna-Dorr, Taynna-Dorr, Drenor e Djanni-Llor, além de Hannis, que aparece apenas na edição número 2. Os leitores gostaram pois recebi centenas de cartas. E quando saiu uma notinha da SPACE WARRIORS na revista WIZARD número 8, ainda mais cartas recebi.

Foi então que descobri que a história era boa, e decidi escrever um livro sobre a série. A Regina (nota: uma amiga em comum e uma talentosa escritora, graças a ela esta entrevista foi possível) foi quem me "soprou nos ouvidos" essa idéia. Ela diz ser a fã número 1!

Em 1995, quando surgiu a idéia para o livro, eu já havia preparado vários fragmentos de texto. Eram esboços de roteiros para HQs feitos a lápis com histórias sobre as ruínas de Konthara e a lua de Thargon, trechos de diálogos entre os personagens e até outros contos fantásticos que escrevi entre 1987 e 1991 e que aproveitei também na composição de OS FILHOS DE VENN. Na verdade, o livro é um grande caldeirão onde joguei toda a experiência que acumulei no decorrer dos anos. E o resultado ficou bom, modéstia à parte! Bem "temperado"!

AA - Como surgiu a oportunidade de publicação pela editora Escala? E por que a série não foi levada adiante?

WF - Foi justamente aquele freelance que o Paulo Borges me passou. Ele estava sem tempo de fazer o trabalho para a Escala devido aos prazos na Abril, daí perguntou se eu queria pegar o serviço. Aceitei, claro! Minha primeira revista em quadrinhos!! Era pra fazer uma adaptação de STREET FIGHTER, que na época era uma febre entre a garotada que curtia vídeo games. Os roteiros eram de Marcelo Cassaro. Na época, a Escala estava dando os primeiros passos na publicação de quadrinhos assim. Foi um sucesso. Depois da STREET FIGHTER, o editor perguntou se eu queria ilustrar um outro título dos games, o ETERNAL CHAMPIONS. Eu havia levado minha pasta com o projeto da SPACE WARRIORS e mostrei para ele. Ele quis saber se aqueles personagens eram meus e seu eu escrevia roteiros também. Eu disse que sim. Então colocou o Eternal Champions de lado e me mandou produzir a Space Warriors. Foi isso.

A SPACE WARRIORS teve duas edições, mas só uma foi publicada. O problema é que eu estava superatarefado ilustrando livros e dando aulas e não tinha tempo para esse projeto. Ilustrar livros rende mais e é mais rápido que fazer quadrinhos! Para não ter que desistir da revista, chamei dois amigos para me ajudarem, o Jean Okada (Jiso) e o Carlos Brandino. Eles estavam começando também e foi um trampolim para se lançarem no mercado. Enquanto o Carlos desenhava as páginas de HQ, o Jiso ilustrava as fichas dos personagens. Escrevi os roteiros, projetei a capa e cuidei das cores. No final de seis meses tínhamos a obra concluída. E a Space Warriors chegou às bancas em novembro de 1995.

Mas as obrigações nos afastaram da série e ela teve que ser abandonada. E agora? O que fazer com uma história tão legal?… Então, veio a idéia de fazer o LIVRO.

ABACAXI ATÔMICO - O quanto a sua vida e gosto pessoal influenciam nas histórias que você escreve e ilustra, e vice versa?

Wagner Fernandes - Ah, muito. Sempre fui fascinado por História da humanidade, enigmas, charadas, civilizações antigas, mitologia, religião e uso isso em meus textos. O livro também é uma homenagem às coisas que eu gostava e tem um pouco de cada uma delas: ARQUIVO X, INDIANA JONES, PLANETA DOS MACACOS, STAR TREK, X-MEN, SHERLOCK HOLMES… Veja só isso: no final do capítulo 1º, um homem está no espaço-porto de Gorat, a capital de KONTHARA. Ele então se dirige a um dos guichês, o 221-B. Ora, 221-B é o número do endereço de Sherlock Holmes na Baker Street! E quando Rayna-Iv procura por um número de apartamento ela passa por um corredor e vê as placas nas portas com "1983, 1984, 1985, 1986… 1987". Estes foram os anos em que criei os personagens! Há coisas assim em algumas partes do livro.

Também sou um cara bem minucioso. Gosto de filmes e quando assisto um costumo observar detalhes de luz, sombra, enquadramento, ângulo de câmera, a trilha sonora, o suspense, as expressões faciais e de corpo, além do próprio enredo, claro. Como desenhista, me interesso pelos mínimos detalhes e, obviamente, utilizo isso enquanto escrevo. Quando uma cena me chama a atenção e percebo que posso usá-la nos textos, procuro descrevê-las em palavras até que cause o impacto que desejo.

Às vezes coloco uma música para dar "aquela" inspiração em determinadas cenas. Isso é legal e realmente funciona. De fato, sempre imaginei OS FILHOS DE VENN como um FILME. Parece que "VEJO" as cenas, as tomadas, ouço a trilha sonora…

Gosto muito de música clássica e trilhas sonoras de filmes. Há momentos em que violinos, flautas, oboés e outros instrumentos surgem na história como pano de fundo, dando um clima todo especial. Florestas, montanhas, rios, cavalos e belas paisagens também me atraem e há muitos deles na aventura.

AA - Quais são as suas principais influências como artista?

WF - Quadrinhos da MARVEL publicados no Brasil nos anos 80, principalmente aqueles desenhados por John Byrne e John Buscema. Também estudei a arte de Boris Vallejo. Meus quadrinhos favoritos eram X-MEN, Homem-Aranha e Conan. Como eu não tinha muita grana, esses eram os quadrinhos que eu mais tinha acesso. Depois conheci a arte de Moebius, Heavy Metal, Asterix e vários outros.

Sendo um artista comercial, não tenho um "estilo" definido. Tudo depende do tipo de trabalho que me é proposto. Assim, em determinada obra faço um estilo infantil; em outra, algo mais realista. Isso é bom porque experimento várias especialidades e técnicas. Posso utilizar apenas o grafite ou o nanquim; outras vezes, a tinta óleo ou acrílica. Às vezes uso o ecoline, o guache ou o lápis de cor. Atualmente trabalho mais com o Photoshop. Os recursos são variados e freqüentemente faço combinações desses estilos e técnicas.

AA - Quais seriam as principais diferenças entre escrever livros ou escrever quadrinhos? O processo é o mesmo, ou um é mais trabalhoso que o outro?

WF - A linguagem dos quadrinhos é mais sintetizada e econômica, de fácil absorção. Como o foco está no VISUAL, o impacto fica justamente nas imagens e é por isso que os textos nos balões são curtos. HQ é feita para ser uma leitura rápida. Resumindo, as FIGURAS é que narram a história, tendo os balões geralmente como complemento. Às vezes não é necessário sequer texto ou balões em uma HQ. A imagem por si só já é suficiente. Claro… há algumas exceções, mas, em geral é isso.

Escrever um livro, no entanto, é mais complicado mesmo. Você não trabalha com imagens, mas com PALAVRAS. O impacto das cenas está na maneira como elas são descritas e utilizadas. Ao ler o texto, o leitor deve ser levado a sentir o que os personagens estão sentindo, caso contrário, não terão nenhum "envolvimento" com eles e o texto torna-se apenas mera descrição fria de alguma coisa, sem contribuir em nada para a vida de quem o lê.

O leitor precisa se sentir como participante da aventura, como se fosse um amigo e companheiro dos personagens, um cúmplice na aventura e não um observador qualquer. E conseguir esse "efeito" exige MUITO do autor!!! As palavras têm que atingir a emoção e até a razão de modo a fazer com que a pessoa aprecie a narrativa e deseje mais!

Escrever um livro, tecnicamente exige ler e reler o texto centenas de vezes, corrigir, acrescentar trechos e cortar aqueles que são repetitivos (ainda que otimamente escritos); consultar a Gramática e livros e revistas que contenham algum assunto relativo à história, ter o dicionário SEMPRE à mão, observar as pessoas e o comportamento delas para compor personagens convincentes e ter muita, mas muita PACIÊNCIA!!!

Desde que iniciei o projeto de OS FILHOS DE VENN, em 1996, tenho sempre feito alterações aqui e ali. Muitas vezes me canso da história e a deixo de lado por semanas, às vezes meses. Então, quando retorno ao trabalho acabo descobrindo novos detalhes que passaram despercebidos anteriormente e faço as devidas alterações. Assim, a obra vai ganhando corpo, ficando mais perto da perfeição. Um amigo me disse que "enquanto a obra está nas mãos do artista nunca será concluída". E isso é um fato.

Escrever quadrinhos é mais simples (embora não menos complicado em alguns casos). É preciso descrever as cenas e as falas dos personagens, as tomadas e ângulos, cores (se houver) e o resto fica por conta do desenhista com sua arte - que pode ser muito trabalhosa também!

AA - Como você percebe o mercado de quadrinhos nacional e a vida de quadrinista aqui no Brasil? Você acha que muita coisa mudou desde que você publicou o primeiro número de Space Warriors?

WF - O mercado melhorou consideravelmente de 1995 pra cá. Temos mais títulos de autores brasileiros e isso é bom porque mostramos nossa arte. Apesar do apoio de editoras como Escala, Via Lettera e outras, acho que quem faz quadrinhos -salvo raras exceções - tem muita dificuldade para viver DE QUADRINHOS no Brasil. O trabalho exige muito tempo e a remuneração é insuficiente para cobrir as despesas e o tempo dedicado a esta profissão. Por isso muitos migram para a publicidade ou outro setor das artes gráficas.

Claro, a PAIXÃO pelos quadrinhos mantém muitos na luta, o que é bom! (Enquanto outras pessoas não dependerem deles pra viver, tudo bem!). Vejo que aos poucos estamos derrubando barreiras e ganhando mais espaço, apesar de o artista de HQ e desenho em geral ser visto com certo preconceito ainda. Mas as escolas já não vêem os gibis como prejudiciais aos alunos, como ocorria anos atrás; ao contrário, são ótimas auxiliares no aprendizado e a maioria dos livros mostram cenas de quadrinhos.

Também tenho visto vários desenhistas aparecendo na mídia e falando da profissão. No meu caso, por exemplo, consegui lecionar em oficinas culturais de HQ onde ensino um pouco do que sei. Em minha época de adolescente isso era inimaginável.
Ao meu ver, estamos estabelecendo nossos "postos avançados" nesta "guerra" para a valorização dessa arte maravilhosa. Que cada um defenda bem seu posto, mas sempre unindo forças aos companheiros de luta!

AA - As dificuldades de um escritor de fantasia no Brasil são as mesmas de um quadrinista, ou trabalhar com quadrinhos é mais complicado?

WF - Antes de responder a sua pergunta quero comentar algo. Ultimamente tem-se falado do crescimento e do incentivo à leitura em nosso país, especialmente entre os jovens. Recentemente, vi uma notícia fabulosa mostrando uma idéia de muito bom gosto. As pessoas deixavam livros em locais públicos (metrô, praças, avenidas) para que outras os pegassem. Uma idéia maravilhosa e que deveria ser posta em prática com maior freqüência! Uma jovem estudante deu uma entrevista dizendo que adorou a idéia e que seria ótimo se houvessem mais livros de aventura voltados para jovens. Ela gostou de Harry Potter e O Senhor dos Anéis e queria saber por que no Brasil não se existiam histórias assim.

A idéia de deixar livros em locais públicos é fantástica e a declaração da garota tem fundamento. Isso é bom para os escritores e para a população em geral. Sobre sua pergunta, acho que fazer quadrinhos é mais vantajoso.

Primeiro: porque a tiragem é maior, a distribuição é melhor, ficam em local (bancas) de fácil acesso a estudantes e assim mais perto dos jovens. Segundo: qualquer tema é publicável em HQs. Histórias excelentes e até muita porcaria. Já um livro de fantasia tem que enfrentar barreiras tremendas para chegar nas mãos dos jovens. Inicialmente, o preconceito das editoras com o tema - AVENTURA, FICÇÃO CIENTÍFICA. Em seguida, o autor ser desconhecido do público. Tem que "ter nome" para ter uma chance de publicar algo... E, finalmente, há o problema da distribuição do livro nas livrarias do país. Por isso, mesmo que um livro legal seja publicado, muitas vezes você não o encontrará na livraria de sua cidade!!!

Acredito que existam muitos autores brasileiros que só precisam de pessoas (lê-se "editores") de mente aberta e sem preconceito que valorizem o trabalho dessa gente.

Note isso: vemos hoje no cinema muitos filmes derivados dos quadrinhos ou que tenham elementos derivados das HQs (superseres, ficção, aventura) como X-MEN, DEMOLIDOR, MATRIX, HOMEM-ARANHA… Sucessos absolutos de bilheteria em todo o mundo. E para quem são dirigidos? JOVENS! Vemos livros de FANTASIA que se tornaram sucesso editorial (e posteriormente cinematográficos): HARRY POTTER e O SENHOR DOS ANÉIS - voltados para quem? JOVENS!

Ora! Os editores brasileiros não percebem isso? Será que é só a indústria do cinema que descobriu que os jovens gostam de FANTASIA, AVENTURA e FICÇÃO CIENTÍFICA, SUPER-HERÓIS? Será que ninguém aqui percebe que o que faz sucesso nas telas surgiu do que era considerado algo marginalizado como livros de fantasia e quadrinhos? E se fazem tanto sucesso e arrecadam milhões de dólares, POR QUE NÃO INVESTIR EM AUTORES DE FANTASIA?! Onde estão os livros para jovens? (refiro-me a livros de ficção e fantasia). Além de alguns da linha de paradidáticos, posso contar nos dedos (de uma mão!) os que conheço!!! Por que as editoras brasileiras têm tanto receio desses novos autores, que cresceram vendo seriados de aventura e lendo GIBIS de super-heróis?

Será que, só porque somos brasileiros, não podemos escrever histórias interessantes ou o que é bom e lucrativo? Com isso estão querendo dizer que somos um bando de incompetentes? Que brasileiro não é capaz de escrever ficção? Sabe, certa vez estive numa editora (não vou dizer o nome porque sou uma pessoa educada!) e mostrei meu trabalho. Quando a mulher viu que eu escrevia ficção, simplesmente riu da cara como se fosse algum absurdo!!! Polidamente, me despedi e saí de lá.

Essa é uma questão séria e que merece ser discutida em nossos sites, fanzines, revistas e reuniões de escritores. Não podemos deixar-nos ser ridicularizados! Autores de fantasia e ficção, UNI-VOS!

AA - O que você acha dessa proposta de utilizar a Internet como meio de divulgação de artistas nacionais através de quadrinhos virtuais ou de páginas pessoais?

WF - Foi a melhor coisa que já inventaram! Como um jovem lá do subúrbio poderia mostrar suas criações a pessoas de outras cidades ou estados? Isso é uma revolução! Como EU poderia estar dando estas respostas a você se não fosse pela internet? Estou em Guarulhos e você em… Onde é que você está, hein? Rsrsrs.

Mas, sim, A internet é um meio de transmitir IDÉIAS. Um veículo dos mais importantes na atualidade. Através dela posso colocar outras pessoas dentro do universo que existe em minha imaginação, unicamente em minha imaginação. Já pensou? Mundos inteiros existindo na mente de um homem? Às vezes me sinto na obrigação de contar aos outros sobre este universo, como se eu fosse o único astronauta a estar lá e ter visto coisas fantásticas que não podem ser guardadas só para mim. É co-mo no filme CONTATO, com Jodie Foster. Tudo o que ela viu e contemplou com tanta admiração mudou sua vida porque sentiu que PRECISAVA contar aos outros. É assim que eu me sinto. Talvez eu nem esteja tão empolgado em ser "mais um autor de fantasia" quanto estou para mostrar este mundo que tenho dentro da cabeça.

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